
Os saberes que atravessam gerações pela palavra, pelas mãos e pela memória chegam às telas com “As Benzedeiras”, longa-metragem documental dirigido e roteirizado por Labibe Araújo, com estreia prevista para 12 de novembro nos cinemas. O filme mergulha no universo da benzeção e acompanha mulheres que preservam conhecimentos tradicionais de cuidado, espiritualidade e cura, evidenciando a permanência dessas práticas na sociedade brasileira contemporânea. Além disso, a produção embarca em seu primeiro festival e integra a Seleção Oficial do VII Festival Cinema Negro em Ação de 2026.
O filme nasce do interesse da realizadora pelas práticas tradicionais de cura e pelos conhecimentos transmitidos entre gerações, acompanhando mulheres que mantêm vivo um modo de compreender o cuidado que resiste ao apagamento, à desvalorização dos saberes populares e às transformações sociais que atravessam as comunidades onde essas práticas são preservadas.
Em vez de tratar a benzeção apenas como uma prática pertencente ao passado, “As Benzedeiras” direciona seu olhar para essas mulheres como guardiãs de conhecimentos que continuam presentes no cotidiano. O longa evidencia relações profundas entre corpo, território, comunidade, espiritualidade e ancestralidade, mostrando como o benzimento pode assumir diferentes significados de acordo com a trajetória de cada mulher e com o contexto cultural no qual sua prática está inserida.
Realizado em diferentes regiões do Brasil, o longa reúne as histórias de Camila Gomes, de Florianópolis (SC); Josy Andrade, de Salvador (BA); A-yá Kukamiriam, de Manaus (AM); Rosa Maria, de Nossa Senhora do Livramento (MT); e Mametu Muiandê (Mãe Efigênia), de Belo Horizonte (MG). Cada uma possui sua própria maneira de benzer, e o filme acompanha parte de suas trajetórias, revelando como receberam a vocação para o benzimento, a relação das comunidades com essa prática e suas conexões com diferentes formas de religiosidade e espiritualidade.
A produção também aborda aspectos menos discutidos sobre a atividade das benzedeiras, incluindo a transmissão desses conhecimentos, o reconhecimento de suas comunidades e a própria relação com o trabalho realizado. A questão da cobrança pelo benzimento, por exemplo, aparece como parte das reflexões propostas pelo documentário, permitindo observar como essas mulheres estabelecem relações entre conhecimento, cuidado, tradição e sustento.
Ao reunir personagens de diferentes regiões e trajetórias, “As Benzedeiras” também evidencia a diversidade existente dentro dessas práticas tradicionais. Embora compartilhem o benzimento como elemento central, as experiências apresentadas pelo documentário não são uniformes. Cada personagem carrega conhecimentos, referências culturais e formas próprias de compreender o cuidado, construindo um retrato plural de uma tradição que permanece viva em diferentes partes do país.
A trajetória de Labibe Araújo no audiovisual atravessa diferentes funções cinematográficas. Integrante do Coletivo Coisa de Preto desde 2017 e associada à APAN – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, a realizadora já trabalhou com direção de arte, direção de fotografia, assistência de direção, produção e realização de mostras e cineclubes. “As Benzedeiras” marca sua atuação como roteirista e diretora de um longa-metragem documental, reunindo experiências acumuladas ao longo de sua trajetória no audiovisual.
O projeto também se conecta à atuação da Sarasvati Cultural, produtora dedicada a projetos que valorizam a diversidade cultural brasileira e as relações entre saberes ancestrais e contemporâneos. Parte da pesquisa e das filmagens passou pelo Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, em Belo Horizonte, espaço de resistência, memória e preservação da cultura afro-brasileira, fundado por Mãe Efigênia na década de 1970.
Contemplado pelo edital Realizadores/2022, com recursos do BRDE/FSA – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, Fundo Setorial do Audiovisual e ANCINE, o longa dá continuidade a um processo de pesquisa que aproxima cinema, memória e cultura popular. A distribuição será realizada por meio do Edital de Comercialização em Cinema do MinC 2025.
Fonte: Correspondência por e-mail
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